sexta-feira, 12 de junho de 2015

Este blog tem como objetivo fazer uma análise, através da psicologia, das determinantes sociais de saúde (DSS) relacionadas à profissão de caminhoneiro. "Os DSS são os fatores sociais, econômicos, culturais, étnicos/raciais, psicológicos e comportamentais que influenciam a ocorrência de problemas de saúde e seus fatores de risco na população.” (BUSS, PELLEGRINI FILHO, 2007, p. 78).

O caminhoneiro é um agente de grande importância na econômica do país, transportando diversos tipos de mercadorias para atender às diversas necessidades da população, conforme nos explica Martins & Dell'agli (2014, p. 912) "o motorista de caminhão é um dos grandes protagonistas do desenvolvimento econômico do país [...] No Brasil, o número desses trabalhadores está entre um milhão e oitocentos mil e dois milhões".

A importância do trabalho, porém, não garante as condições de trabalho idéias para estes profissionais; o documentário "Sobre Eixo" nos trás, através do relato dos próprios caminhoneiros, a realidade destes trabalhos, que percorrem estradas de baixa qualidade e inseguras, que ficam dias, semanas e até mesmo meses longe de suas famílias.

Referências

BUSS, Paulo Marchiori; PELLEGRINI FILHO, Alberto. A Saúde e seus Determinantes Sociais. Rio de Janeiro: Rev. Saúde Coletiva, 2007.

MARTINS, Luzia Teixeira; DELL’AGLI, Betânia Alves Veiga. Psicologia: Ciência e Profissão, v. 34, n.4, p.894-915, Brasília, 2014


quinta-feira, 11 de junho de 2015

Conforme trouxemos no post anterior, além do uso abusivo de anfetaminas naturalizado no seu uso cotidiano e sem a conscientização de seus efeitos nocivos (ABREU & OLIVEIRA apud BATISTA & SILVA, 2006), o caminhoneiro também está exposto a outros fatores de risco em sua profissão. Em sua rotina de serviço cotidiana, conforme nos trazem Abreu & Oliveira (2014) estes profissionais trabalham muitas horas seguidas, dormem mal, comem alimentos excessivamente gordurosos e não fazem exercícios. É um comportamento de alto risco que aumenta muito as probabilidades de acidentes cardiovasculares e outros fatores que comprometem a sua vida.

Lei nº 13.103 de 02 março de 2015

Esta é a lei que atualmente regula o trabalho do caminhoneiro, seus direitos e deveres. Entre os diversos direitos conquistados, estão uma jornada de trabalho controlada e anotada, tempos de descanso e repouso definidos, acesso gratuito a programas de formação e aperfeiçoamento profissional, seguro custeado pelo empregador, destinado à cobertura de morte natural, morte por acidente, invalidez total ou parcial decorrente de acidente, além do atendimento de saúde por intermédio do Sistema Único de Saúde (SUS) conforme citado em nosso último post. Dentre os deveres destes profissionais, podemos citar o cumprimento às leis de trânsito, o exame toxicológico obrigatório na admissão e demissão, realizar descanso de ao menos 30 minutos a cada 6 horas dirigindo (ou seja, não poderá dirigir mais de 5 horas e meia ininterruptas), reservar 11 horas de descanso para cada período de 24 horas de trabalho.

Para ver a lei na íntegra, basta acessar:




Referente a jornada de trabalho, que é um dos DSS que mais influenciam na saúde do motorista, houveram também conquistas. Atualmente o a jornada de trabalho está definida em 8 horas/dia com adendo máximo de 4 horas/dia, sendo considerado trabalho efetivo enquanto o motorista empregado estiver à disposição do empregador, excluídos porém os intervalos para refeição, repouso e descanso e o tempo de espera. Dentro do período de 24 horas, 11 horas devem necessariamente ser destinadas ao descanso. Em viagens de longa distância, o motorista poderá utilizar como local de descanso o caminhão, alojamento fornecido pelo empregador, contratante, embarcador ou destinatário da carga, desde que este ofereça as condições adequadas. Caso a viagem exceda 7 dias, estão dispostas 24 horas conforme previsto para descanso semanal. Para que haja o cumprimento da jornada de trabalho conforme prevista na lei, o equipamento eletrônico ou registrador de tempo e velocidade deverá funcionar de forma independente de qualquer interferência do condutor, quanto aos dados registrados.

Apesar do Art. 9o  considerar que “as condições de segurança, sanitárias e de conforto nos locais de espera, de repouso e de descanso dos motoristas profissionais de transporte rodoviário de passageiros e rodoviário de cargas terão que obedecer ao disposto em normas regulamentadoras pelo ente competente”, o cumprimento deste ponto importantíssimo ainda não se faz presente na realidade destes profissionais, dadas as péssimas condições de higiene e segurança nos ainda escassos pontos de parada e descanso ao longo das estradas.

A atividade laboral como fator de risco para a saúde mental dos caminhoneiros

Conforme visto até aqui em no blog, a integridade psicofisiológica destes trabalhadores sofre constantemente com danos que podem acarretar em agravos à saúde, estresse, aborrecimentos e insatisfações (PEREIRA et al, 2010, p. 905). De acordo com os resultados da pesquisa destas autoras, estresse e saúde mental na atividade laboral estão entre os quatro principais fatores identificados como agravantes na saúde destes profissionais. De acordo com Souza (2013, p. 105) é importante que, ao buscar estabelecer nexo entre trabalho e saúde/doença mental, sejam considerados o contexto laboral, a subjetividade do trabalhador e, principalmente, a relação entre esses dois aspectos.

De acordo com os resultados de Ulhoa (2010), a prevalência de distúrbios psíquicos menores esteve presente em 6,1% dos caminhoneiros entrevistados, sendo que em 50,7% tem medo de sofrer acidente, 64,4% de ser assaltado (64,4%). O estresse, tensão ou fadiga durante o trabalho se mostra devido a congestionamento ou trânsito intenso (52,4%), controle rígido do sistema de rastreamento no veículo (36,5%) jornada extensa do trabalho (28,7%), sendo que 70% dos motoristas faz jornadas de mais de 10 horas, e finalmente 51,1% devido a baixa satisfação no trabalho. Além disso, a autora também aponta como aspectos de maior insatisfação como sendo o salário em relação à experiência e à responsabilidade (52,5%), a forma com que os conflitos são resolvidos (46,7%), a comunicação e forma do fluxo de informação na empresa (46,4%) e por fim o grau de participação em decisões importantes (46,4%).

De acordo com dados trazidos por Masson & Monteiro (2010, p.534) encontrados inúmeros problemas para a saúde do caminhoneiro, tais como: altas taxas de sedentarismo, obesidade,hábitos alimentares inadequados, extensas jornadas de trabalho, poucas horas de sono em dias de trabalho, uso de drogas estimulantes para a manutenção da vigília, vulnerabilidade ás práticas de risco para as DST\AIDS.

Considerando que a saúde física e psíquica está intimamente ligada, a partir destes dados podemos observar que os transtornos mentais e do comportamento relacionados ao trabalho resultam não de fatores isolados, mas de contextos de trabalho em interação com o corpo e o aparato psíquico dos trabalhadores (SOUZA, 2013, p. 102). Estes fatores interferem diretamente na qualidade de vida e saúde destes indivíduos, tornando-se um problema de saúde pública, visto que ao terem sua saúde debilitada podem ocasionar acidentes de trabalho gerando inúmeras vítimas (PEREIRA et al, 2010, p. 906).


Referências

ABREU, Juliana Andrade de; OLIVEIRA, Valéria Marques de. Como reduzir e administrar o estresse em caminhoneiros. 2014. Disponível em:{http://www.psicopedagogia.com.br/new1_artigo.asp?entrID=1740#.VVy39blVikp}


MASSON, Valéria Aparecida; MONTEIRO, Maria Inês. Estilo de vida, aspectos de saúde e trabalho de motoristas de caminhão. Rev. bras. enferm.,  Brasília ,  v. 63, n. 4, p. 533-540, Aug.  2010 .

PEREIRA, Caroline Aquino; SALLES, Glauce Cristina Silva; PASSOS, Joanir Pereira. As condições de trabalho e sua relação com a saúde dos trabalhadores condutores de transporte. Revista de Pesquisa: Cuidado é Fundamental Online, 2011.

SOUZA, Wladimir Ferreira de. Transtornos mentais e comportamentais relacionados ao trabalho: o que a psicologia tem a dizer e a contribuir para a saúde de quem trabalha?. Fractal, Rev. Psicol.,  Rio de Janeiro ,  v. 25, n. 1, p. 99-108, Apr.  2013.

ULHOA, Melissa Araújo et al . Distúrbios psíquicos menores e condições de trabalho em motoristas de caminhão. Rev. Saúde Pública, São Paulo , v. 44, n. 6, p. 1130-1136, Dec. 2010.

Rebite: “A droga do caminhoneiro”

Este post tem a proposta de trazer informações importantes acerca do uso de rebite por caminhoneiros, seus motivos, causas e efeitos, e também esclarecer o leitor sobre o que é o rebite e como ele atua no corpo destes profissionais . Mas antes de mais nada, podemos nos indagar: porque afinal o rebite é conhecido popularmente como uma droga utilizada pelos caminhoneiros? Para responder esta questão, temos que ir por partes e primeiro trazer informações importantes sobre o que é ser caminhoneiro.

Porque é feito o uso do rebite?

Ser caminhoneiro implica em várias horas na estrada para cumprir a jornada de trabalho e os horários de entrega da mercadoria e para isto estes profissionais necessitam dirigir por várias horas trazendo prejuízos ao sono (KRAUSE & CARNIEL, 2014, p. 126). Conforme nos traz o documentário Sobre Eixo, exibido abaixo, “tem cerca de dois caminhões e meio para cada motorista. E sabe qual é o resultado disso? Ficar na pista por mais tempo que gostaríamos”. Os motoristas precisam ficar mais tempo na estrada, mas também desejam entregar as cargas rapidamente para voltar para perto da família. Além disso, incentivos ou pressão por parte das empresas contribuem para que o motorista tenha longas jornadas diárias de trabalho e permaneça muito tempo sem dormir (KNAUTH et al, 2012, p. 888).

Para dar conta dos curtos prazos, muitos profissionais acabam utilizando drogas para permanecer acordado, e entre elas, o rebite. Esta informação está nos resultados do estudo de Knauth et al (2012, p. 892), que concluem que permanecer mais dias fora de casa a trabalho está associado ao consumo de rebite.

O que é o Rebite?

O rebite, ou bolinha como também é conhecido, é uma anfetamina, ou seja, uma droga estimulante. Ela estimula o sistema nervoso central, fazendo com que ele tenha um ritmo mais acelerado de trabalho (COSTA & SILVA, 2010, p.12). Dessa forma, a pessoa que toma anfetaminas é capaz de executar uma atividade qualquer por mais tempo, sentido menos cansaço (INTERATIVAS, 2013). Conforme explicam Costa e Silva (2010, p. 13), ela é uma droga sintética, ou seja, é produzida em laboratório onde algumas podem até ser comercializadas como remédio. Os autores ainda alertam que o uso contínuo dessa droga leva o organismo a acostumar-se com tal substância fazendo com que o usuário tome doses cada vez maiores.

Porque o uso de rebite é perigoso?

A resposta é simples, mas preocupante: pois passado o efeito estimulante da droga, o corpo é colocado sob o efeito contrário, gerando cansaço e fadiga. Quem explica melhor esta questão é Takitane et al (2013, p. 1248), quando coloca que embora esse efeito possa ser entendido como uma vantagem ao condutor, à medida que a concentração plasmática de anfetaminas aumenta, menor é o desempenho do condutor na direção. Sobretudo, preocupa o fato de que, finalizado o efeito estimulante das anfetaminas, o condutor estará submetido a um efeito “rebote” sobre o SNC, que envolve a indução de depressão, fadiga e sono. Assim, em conjunto, os efeitos agudos e residuais das anfetaminas submetem o condutor a situações de risco no trânsito, impedindo-o de realizar uma direção considerada segura.

Esta é uma questão muito delicada, pois segundo os resultados da pesquisa de Knauth et el (2012, p. 889), 23% dos 854 motoristas declararam que fazem uso de alguma substância para se manterem ativos. Os autores também encontraram uma associação entre o uso do rebite e faixas etárias mais jovens, o aumento da renda, períodos mais longos das viagens e o consumo de álcool (KNAUTH et al, 2012, p. 889). Esta relação entre a anfetamina e o álcool também é perigosa, pois normalmente o rebite é ingerido com bebidas alcoólicas para potencializar o seu efeito (COSTA & SILVA, 2010, p. 13). De acordo com Pereira et al (2010, p. 906), o uso abusivo destas substâncias causa acidentes e mortes no trânsito o que torna isso um sério problema para saúde pública.



Já existem formas de tratar estes profissionais, conforme traz o Art. 3o da nova lei número 13.103 que regulamenta a profissão do caminhoneiro, uma vez que “aos motoristas profissionais dependentes de substâncias psicoativas é assegurado o pleno atendimento pelas unidades de saúde municipal, estadual e federal, no âmbito do Sistema Único de Saúde, podendo ser realizados convênios com entidades privadas para o cumprimento da obrigação.” Além disso, o § 7o do Art. 5o traz que deverão ser realizados exames toxicológicos na admissão e desligamento destes profissionais, sendo este exame específico para substâncias psicoativas que causem dependência ou, comprovadamente, comprometam a capacidade de direção. Esta lei é destinada tanto aos motoristas que possuam vínculo empregatício formal (carteira assinada), quanto aos motoristas autônomos ou informais.

Fora o que dispõem a lei, também podemos citar como formas de melhoria a informação e educação em relação a estas substâncias, além de melhores condições de trabalho, podem ser apontados como fatores de melhoria na saúde destes profissionais.





REFERÊNCIAS

COSTA, Paulo Marks De Araújo; DA SILVA, Talita Stefany. Drogas. Clube de Autores, 2010.

INTERATIVAS, Fausto Ramos Soluções et al. Drogas-Anfetaminas (Bolinhas, Rebites)-PARTE II. 2013. Disponível em {http://www.minutofarmacia.com.br/postagens/2013/11/18/drogas-anfetaminas-bolinhas-rebites-parte-ii/}

KNAUTH, Daniela Riva et al. Manter-se acordado: a vulnerabilidade dos caminhoneiros no Rio Grande do Sul. Rev Saude Publica, v. 46, n. 5, p. 886-93, 2012.

PEREIRA, Caroline Aquino; SALLES, Glauce Cristina Silva; PASSOS, Joanir Pereira. As condições de trabalho e sua relação com a saúde dos trabalhadores condutores de transporte. Revista de Pesquisa: Cuidado é Fundamental Online, 2011.


TAKITANE, Juliana et al. Uso de anfetaminas por motoristas de caminhão em rodovias do Estado de São Paulo: um risco à ocorrência de acidentes de trânsito?. Ciência & Saúde Coletiva, v. 18, n. 5, p. 1247-1254, 2013.

Encontros em Movimento - Grupo de Apoio à Socialização de Caminhoneiros


“Toda Ação Transformadora da Sociedade Só Pode Ocorrer Quando Indivíduos se Agrupam” 
(LANE,  Silvia T. Maurer, 1984, p.78)


O documentário Sobre Eixo, entre outros aspectos, retrata a realidade do trabalho e do dia-a-dia dos motoristas de caminhão através do relato de suas próprias torinas..
É fato que o estilo de vida que levam os deixa longe de casa e longe da família, tornando-os saudosos, muitas vezes deprimidos e, ao mesmo tempo que estão conhecendo diversos lugares e em contato com diversas pessoas, fica evidente que a maioria se sente solitária. Relatam que afeta o emocional, que sentem saudades, choram e que são humanos, afirmando que o fato de dirigirem uma máquina não os torna uma. Como afirma um deles: “O psicológico do motorista é o que afasta ele da estrada”.
À partir destes relatos que surge o projeto “Encontros em Movimento”, com o intuito de promover, à luz da Psicologia, a socialização entre  os caminhoneiros em um local fixo da BR 101/SC, que faça parte do trajeto de viagem dos motoristas. Serão propostas práticas de socialização de histórias, vivências, paradigmas, sentimentos, medos, conhecimentos, etc. afim de amenizar as influências que os fatores associados ao estilo de vida nas estradas pode exercer sobre o indivíduo.
Os assuntos abordados nesses encontros serão de livre demanda, ou seja, em cada encontro os assuntos discutidos serão escolhidos pelos membros do grupo sendo estes acompanhados por um dos psicólogos do projeto. Todos participarão da forma como desejarem e terão liberdade para abordar e aprofundar os assuntos da forma que preferirem.
O projeto parte da prerrogativa de que o homem é um ser construído social e historicamente à partir das relações sociais que estabelece e o grupo como um trabalho mediado por uma tarefa comum que une e diferencia seus membros, Andaló (2001). Sendo assim, o trabalho será desenvolvido com o grupo de acordo com sua demanda, considerando a história de vida de cada um de seus membros e seus diferentes contextos e realidades e enaltecendo seus papéis dentro do grupo afim de levar as vivências a níveis mais profundos e ao mesmo tempo facilitar o enfrentamento da realidade com  maior percepção da mesma.
Considerando que muitos motoristas não poderão estar sempre presentes devido o fato de estarem na estrada, serão mantidos diários que contarão suas histórias de vida, cujo novos membros contarão as suas e também conhecerão as dos membros que já frequentam o grupo e vice-versa. Este passo do projeto visa a dimensão da relação com o outro, que segundo L.S. Vygostki (1955), é sempre constante e se origina no contexto das relações pessoais. Bem como que a natureza psíquica do homem constitui o conjunto de relações sociais transferidas do interior do sujeito e convertidas em funções da personalidade e em formas de estrutura. Ainda, que a psique humana é de origem social pelo fato de ser mediada através dos signos, adquiridos durante a vida e história do sujeito. Ou seja, estes signos são interpretados e resignificados possibilitando a regulação de sua própria conduta. Se os signos são constituídos através da linguagem, significa que a interação com o outro tem parte crucial na constituição do eu.
As interações propostas também visam a promoção da saúde através da investigação dos determinantes sociais de saúde, haja visto que as condições de vida e trabalho dos indivíduos e de grupos da população estão relacionadas com sua situação de saúde.
Para isso, pretende-se colocar em prática abordagens que privilegiem os fatores psicossocias na busca dos mecanismos que influenciam na saúde. As relações entre percepções de desigualdades sociais, mecanismos psicobiológicos e situação de saúde, serão bem exploradas com o grupo com base no conceito de que as percepções e as experiências de pessoas em sociedades desiguais provocam estresse e prejuízos à saúde, Buss e Filho (2007). Espera-se também, identificar aspectos macro, meso e micro para que seja possível, conduzir a uma prática de promoção efetiva.





REFERÊNCIAS:

LANE,  Silvia T. Maurer. Psicologia Social: o homem em movimento. 13ª Ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.

ANDALÓ, Carmen Silvia de Arruda. O Papel de Coordenador de Grupos. Revista de Psicologia USP, São Paulo v.12, n.1, 135 - 152, 2001.

ZANELLA, Andréa Vieira. Sujeito e Alteridade: reflexões a partir da psicologia histórico-cultural. Revista Psicologia & Sociedade, Florianópolis, v.17, n. 2, 99-104, mai/ago 2005

BUSS, Paulo Marchiori; FILHO, Alberto Pellegrini. A Saúde e seus Determinantes Socias. Revista Saúde Coletiva, Rio de Janeiro,v.17, n.1, 77-93, 2007.

A influência da família na decisão da profissão de caminhoneiro.

No documentário Sobre Eixo, podemos observar em diversos momentos a influência da família, principalmente do pai, na escolha da profissão de caminhoneiro.


"Eu vou falar a frase do meu pai: "eu sou caminhoneiro, porque quando meu pai me mandou estudar e me deu condição pra estudar eu não estudei.

Então, quando eu cheguei nos 18 anos e eu ainda não tinha uma profissão, meu pai falou:
“Se você não tem uma profissão, tira a carta profissional porque se um dia a situação apertar pra você, você vira caminhoneiro e pelo menos o sustento da tua família você tira”.


Podemos conceituar o interesse profissional como "uma tendência para buscar a satisfação de necessidades e de valores pessoais, caracterizada pela prontidão de resposta a estímulos ambientais específicos, que podem ser objetos, atividades, pessoas ou experiências" (NORONHA, OTTATI, 2010, p. 39).

É comum vermos filhos seguindo a profissão dos pais, e na profissão de caminhoneiro não é diferente, muitos dos entrevistados no documentário seguem essa profissão guiados pelos pais, avós, tios, são fortemente influenciados pela família. A decisão profissional envolve o sujeito em diversos aspectos, sejam eles pessoais, sociais, familiares ou psicológicos, seguindo essa lógica, Filomeno, (1997, p.16) apresenta um esquema onde faz-se necessário“entender o ser humano como um ser em inter-relação e integração, cujas decisões interferem umas nas outras. É pensar num ser sistêmico, integrado e totalizado”


Vale salientar que a influência da família na escolha profissional do indivíduo pode ser dar maneiras positivas ou negativas, de qualquer maneira, é um fator considerável para a escolha profissional, “Bohoslavsky (1982) acredita ser a família o grupo de participação e referência essencial, tanto que devem ser analisados quais valores esta família repassa ao jovem a respeito das profissões, bem como o grau de satisfação ou insatisfação dos pais ou pessoas próximas quanto às suas próprias profissões, pois estarão, de algum modo, influenciando aquele que escolhe uma carreira".


Dessa forma é possível entender como o fato o "ser caminhoneiro", mesmo relacionado com algo negativo que é a baixa escolaridade, é processado como algo positivo e é motivo de orgulho graças aos aspectos positivos destacados através das gerações, como a capacidade que a profissão da de sustentar a família.

Porém esse conceito vem mudando, já que no brasil o desejo dos jovens de classe média alta por cursar uma universidade é praticamente unanime (NORONHA, OTTATI, 2010), e parte dos caminhoneiros hoje integram está classe. É o que nos trás a pesquisa realizada pela Raízen, empresa especializada em energia renovável, onde somente 3% dos filhos de caminhoneiros demonstram ambição em seguir a profissão o pai. Um caminhoneiro chega a conclusão de que como as condições em casa melhoraram, os filhos não tem interesse pela vida dura da estrada. Sendo que é previsível que filhos ambicionem profissões consideradas superiores as dos pais, mostrando que o fator principal na escolha da escolha da profissão não é o biológico, ou vocacional, e sim o ambiente econômico e social ligado às oportunidades de escolarização. (NORONHA, OTTATI, 2010; NEPOMUCENO, WITTER, 2010).

REFERÊNCIAS

FILOMENO,K.. Mitos Familiares e escolha profissional: uma visão sistêmica. São Paulo: Vetor, 1997.

GABEL,C.L.M; SOARES, D.H. P. Contribuições da Terapia Familiar Sistêmica para a Escolha Profissional. Revista Brasileira de Orientação Profissional. Santa Catarina: Blumenau, 7(1), 2006. p.57-64.

NEPOMUCENO, Ricardo Ferreira; WITTER, Geraldina Porto. Influência da família na decisão profissional: opinião de adolescentes. Revista Semestral da Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional, São Paulo, v. 14, n. 1, p.15-22, jan. 2010.

NORONHA, Ana Paula Porto; OTTATI, Fernanda. Interesses profissionais de jovens e escolaridade dos pais.Revista Brasileira de Orientação Profi Ssional, Itatiba, v. 11, n. 1, p.37-47, 24 maio 2010.

VIDA na estrada tem o seu valor. 2013. Disponível em: <http://blogdocaminhoneiro.com/2013/06/vida-na-estrada-tem-o-seu-valor/>. Acesso em: 11 jun. 2015.

Filosofando na boléia

Todos já devemos ter ouvido em algum momento da vida que ser caminhoneiro é mais do que uma profissão: é uma filosofia de vida. Entendemos isto relacionado fortemente com a motivação do caminhoneiro em ficar tanto tempo na estrada, na ideia de poder conhecer o mundo e cada dia estar num lugar diferente. Podemos também tomar isso como uma concepção nossa, ou o que comumente é chamado de “filosofia barata”. Pois bem, vamos então discutir como, de fato, esta profissão pode estar uma certa vertente filosófica.


A epistemologia empirista, que teve entre seus mais destacados filósofos Francis Bacon (1561 – 1626), John Locke (1632 - 1704) e David Hume (1711 - 1776) traz a concepção de que a experiência é o guia e o critério de validade do conhecimento. Segundo John Locke, o Homem se apropria do conhecimento através de da experiência sensível externa (sensação) e da experiência espiritual interna (reflexão). Para os empiristas, o saber não é algo inato e o ser humano não nasce uma tabula rasa.


Certo, se então mantivermos esta concepção e entendermos a experiência como fonte e limite do conhecimento humano, podemos nos levar a pensar que o caminhoneiro, em sua profissão que é repleta de novos lugares e experiências, pode ter aberto diante de si um mundo de conhecimento. Esta é uma possibilidade que a profissão oferece a estas pessoas. Agora, depende do caminhoneiro o cuidado de não criar preconceitos. Mas o que seriam estes preconceitos? O filósofo David Hume que tendemos a ter preconceitos e expectativas através da habituação, sendo que esta é dada através da experiência. A habituação seria o costume de vermos um evento sucedendo ao outro, sem levar em conta o verdadeiro motivo para aquela relação. Um exemplo a isto é o raio e o trovão. Podemos nos levar a pensar que como o trovão se dá depois do raio, este último é a causa do primeiro, sendo que na realidade, ambos são produtos de uma descarga elétrica.


Pois então, deu para ter uma idéia de que a profissão de caminhoneiro e a filosofia dialogam entre si. A filosofia pode ser entendida como diversas formas de observar a vida de uma forma reflexiva, dependendo da corrente que utiliza. O olhar empirista sobre o cotidiano do caminhoneiro, é apenas uma forma, entre várias possíveis.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

A importância do pai no desenvolvimento do filho.




O documentário “Sobre Eixo”, realizado com motoristas de caminhão, traz assuntos pertinentes sobre o contexto familiar. A saudade da família e a ausência na criação dos filhos, foram os pontos mais enfatizados pelos entrevistados.

“Você não consegue ver um filho crescer, acompanhar ele andar...Essas coisas de colégio”


Segundo Henningen; Guareschi (2008 apud SGANZERLA; LEVANDOWSKI, 2010), durante muito tempo, as teorias psicanalíticas destacaram o lugar do pai como interventor, mesmo considerando a mãe como figura indispensável para o desenvolvimento e a saúde psíquica das crianças. O envolvimento na educação dos filhos, bem como nos cuidados diários, parecia não ser algo esperado dos homens. Gomes; Resende (2004 apud SGANZERLA; LEVANDOWSKI, 2010) completam dizendo que, hoje, independente da organização familiar, os pais têm reconhecida a sua importância no decorrer do processo de desenvolvimento dos filhos, sendo que será essa presença que irá promover a passagem do mundo da família para o mundo social.

Para Benczik (2011) atualmente, atribui-se ao pai um papel não só de autoridade, mas também de fornecedor de carinho, sendo que este, participa cada vez mais de modo ativo na vida da criança, brincando com ela e atuando na sua educação e na sua formação.










O que a ausência do pai pode acarretar na criança?
         O desenvolvimento psicológico, cognitivo e até mesmo social dessas crianças, pode ser prejudicado devido à ausência do genitor, e também, por relações pouco harmônicas entre pai e filho, Eizirik; Bergman, 2004; Feldman; Klein, 2003 (apud SGANZERLA; LEVANDOWSKI, 2010).
       
Para Buss; Pellegrini Filho (2007) os Determinantes Sociais de Saúde - DSS, são os fatores sociais, econômicos, culturais, étnicos/raciais, psicológicos e comportamentais que influenciam no surgimento de problemas de saúde e seus fatores de risco na população.

Benczik (2011) ressalta que a ausência de um dos modelos, femininos ou masculinos, na educação da criança, implica quase sempre num desequilíbrio no filho. A autora destaca ainda que, atualmente, um dos maiores problemas na educação dos filhos é a ausência da figura paterna ou de uma figura que o substitua, nestes casos, a figura paterna pode ser representada por outro adulto do sexo masculino, que pode ser um tio, um avô, por exemplo, desde que este participe da vida da criança e que tenha um bom vínculo com a mesma.

De acordo com a autora, é possível observar ainda que, os filhos precisam de apoio, segurança e de valores que cabe ao pai transmitir. Os jovens buscam no pai, um modelo para se identificar, sendo assim, na falta deste, esses jovens podem buscar outros modelos para preencher esse vazio, e nesta procura há uma grande possibilidade de não encontrarem/utilizarem modelos propriamente exemplares. Ellis et al., 2003; Harper & McLanahan, 2004 (apud SGANZERLA; LEVANDOWSKI, 2010) ressaltam a importância de uma rede de apoio social efetiva (mãe, avós ou até mesmo instituições como a escola) para que os adolescentes consigam lidar melhor com essa situação.










Com base no documentário “Sobre Eixo” e nos autores citado acima, podemos observar que a presença e participação do pai é um fator de suma importância para o desenvolvimento do filho. A ausência do mesmo pode contribuir para o surgimento de problemas tanto no contexto familiar, quanto no desenvolvimento físico e afetivo dessa criança ou adolescente.










REFERÊNCIAS

BENCZIK, Edyleine Bellini Peroni. A importância da figura paterna para o desenvolvimento infantil. Rev. psicopedag.,  São Paulo ,  v. 28, n. 85,   2011.

BUSS, Paulo Marchiori; PELLEGRINI FILHO, Alberto. A Saúde e seus determinantes sociais. PHYSIS: Rev. Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 17, n. 1, p. 77-93, 2007.


SGANZERLA, Ilciane Maria; LEVANDOWSKI, Daniela Centenaro. Ausência paterna e suas repercussões para o adolescente: análise da literatura. Psicologia em Revista. Belo Horizonte, v. 16, n. 2, p. 295-309, ago. 2010.